“Não temos condições de fazer uma verdadeira justiça ambiental sem um profundo engajamento pela justiça social”

01/09/2018 11:47:00 - Atualizada em 01/09/2018 23:03:04 - Por Camila Oliveira

                O lançamento do Projeto Veredas, que realizará ações de sustentabilidade social nas obras da Companhia de Jesus no Piauí, ocorreu neste sábado (1º), no Auditório do Colégio Diocesano. Houve uma palestra com o secretário para Justiça Socioambiental da Província BRA, padre José Ivo Follmann, SJ, durante o evento. Colaboradores de todas as unidades jesuítas do Piauí participaram.

                Padre José Ivo Follmann, SJ, é doutor em Sociologia pela Universite Catholique de Louvain - UCL, na Bélgica, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), bacharel em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, e bacharel em Teologia (Curso Livre) pela Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos). Possui ainda especialização em Cooperativismo e em História Contemporânea, ambas pela Unisinos.

                O jesuíta deu entrevista ao site do Colégio Diocesano e fala sobre a Justiça Socioambiental na perspectiva da Companhia de Jesus. Confira abaixo:

 

Padre José Ivo Follmann, SJ, palestrou no evento de lançamento do Projeto  Veredas


Diocesano – O que podemos entender por Justiça Socioambiental?

Padre José Ivo Follmann – Muitas vezes, quando falamos de Justiça Socioambiental, entramos pelo viés puramente ambiental. A partir da encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, temos outro paradigma que revoluciona tudo isso: é o paradigma da ecologia integral, que nos dá inspiração para um novo conceito de Justiça Socioambiental, no qual a justiça social e a justiça ambiental andam juntas, integradas. Não temos condições de fazer uma verdadeira justiça ambiental sem um profundo engajamento pela justiça social. Dessa forma, fomos gerando, aos poucos, o conceito de Justiça Socioambiental.

Na Província BRA, estamos trabalhando fortemente, em todas as frentes de apostolado, para levar adiante esse conceito de Justiça Socioambiental. Estamos fazendo, ao mesmo tempo, um trabalho de profundo reconhecimento da dignidade da pessoa, assumindo um compromisso com boas políticas públicas, políticas sociais, políticas de acesso a tudo que uma pessoa na sociedade tem direito e, em terceiro lugar, estimulando um conjunto de políticas de cuidado com os bens da criação. São essas três dimensões que constituem o conceito de Justiça Socioambiental: o cuidado com a natureza, o cuidado com a sociedade e o cuidado com as pessoas.

 

Diocesano – Como trabalhar a Justiça Socioambiental na Educação Básica para a formação integral das pessoas?

Padre José Ivo Follmann – Esse é um desafio muito grande. Em primeiro lugar, de dar atenção a essas três dimensões de forma integrada. De modo que o estudante entenda as questões trabalhadas em educação ambiental de forma integrada com o resto.  Com a saúde, com as estruturas sociais que são mais prejudicadas quando os lixos se acumulam. Ou mesmo considerar como se constituem as cidades, refletir sobre onde vivem as pessoas mais prejudicadas pelo descuido com o meio ambiente: na periferia, sem as mínimas condições de moradia, quase no meio do lixo. Pensando nisso, fica clara relação íntima entre o descuido com a natureza, com a sociedade e com as pessoas. O grande desafio é fazer com que, na educação, os estudantes comecem a perceber isso de forma integrada e a ver sua responsabilidade em contribuir para que tudo isso não se degrade. Porque se a natureza, a sociedade e o ser humano são degradados, todos nós vamos nos degradando juntos nesse barco.

 

Diocesano – Como a Rede Jesuíta de Educação pode trabalhar a Justiça Socioambiental, pensando na transversalidade do tema com outras instituições da Companhia de Jesus?

Padre José Ivo Follmann – Esse é o desafio mais bonito. Como fazer com que as nove redes que constituem a Companhia de Jesus no Brasil se alimentem e se potencializem mutuamente? Porque a tendência é que cada uma se considere autossuficiente. O trabalho conjunto e articulado é o que dá riqueza para a Companhia de Jesus. Hoje, temos o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida [OLMA], que é pensado em rede. Mas ele só será efetivamente assim, se encontrar apoios em cada ponta de cada rede. Se nós conseguíssemos estabelecer uma sinergia comunicacional, fazendo com que isso fosse visto em todas as pontas como algo bom, que ajuda a todos, estaríamos já encaminhados para o êxito.

 

Diocesano – No contexto sócio-político-econômico, como a Companhia de Jesus poderia colaborar numa reflexão e ação para mudança?

Padre José Ivo Follmann – Todos sabemos que vivemos um contexto bastante inusitado, inédito na história brasileira. Um contexto bastante caótico, inclusive, em termos de relativo esvaziamento das próprias esperanças. Já não se acredita muito facilmente no que é falado por aí, porque há tanta falcatrua, mentiras e informações desencontradas, que as pessoas acabam desacreditando. Como ser uma voz credível no meio de tudo isso? Eu vejo como uma boa saída mostrar essa coerência entre diferentes redes. Redes que atuam em diferentes frentes e não competem entre si, trabalham em conjunto, de forma integrada. Acredito que esse seria o melhor testemunho para a sociedade brasileira no momento de hoje, se isso pudesse ser visibilizado por meio da comunicação.

 


Educadores do Colégio Diocesano participam do evento de lançamento do Projeto Veredas

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