Diretor geral do Diocesano dá entrevista à Revista Cidade Verde

09/08/2018 11:16:00 - Atualizada em 09/08/2018 11:57:29 - Por Camila Oliveira

O diretor geral dos colégios Diocesano e Diocesano Infantil, padre Vicente Zorzo, SJ, deu entrevista à Revista Cidade Verde. O conteúdo foi veiculado na edição nº 194, do dia 22 de julho de 2018. Também está disponível abaixo.


O Padre Vicente Palotti Zorzo é um gaúcho descendente de italianos e alemães, dedicado à educação jesuíta no Brasil. Desde janeiro deste ano, ele assumiu a direção do Colégio Diocesano em Teresina, com a preocupação de proporcionar uma educação mais inclusiva e voltada para o pensamento crítico do aluno. O Padre propõe mudanças para que a educação da escola se adapte à evolução da sociedade sem que, contudo, tenha de abrir mãos dos valores tradicionais que a consagraram ao longo de mais de cem anos de história.

Para o educador, a escola precisa contribuir para que os alunos façam a diferença no Piauí. Ele gosta de citar a frase do também padre, Adolfo Nicolás, que diz: “Não formamos os melhores alunos do mundo, mas formamos as melhores pessoas para o mundo”.

Pe. Vicente foi professor de língua portuguesa em Moçambique, na África, antes de se tornar sacerdote. Já ordenado no Brasil, cursou mestrado em educação pela Universidade da Paraíba e, desde então, vem se dedicando à educação, com o propósito de preparar os jovens para um mundo mais ético e solidário. Na entrevista a seguir, ele critica o modelo mercadológico de educação que está invadindo o país e propõe uma nova forma de interagir com as crianças e adolescentes.


RCV - Que tipo de aluno nós devemos preparar para o futuro?

VZ – É uma pergunta bem complexa. Na realidade, eu diria: ‘que sociedade nós queremos para o futuro? ‘ Eu creio que hoje nós temos uma preocupação muito grande com essa questão da educação, que é um problema que perpassa toda a humanidade, desde os gregos, que questionavam o que é um cidadão virtuoso. Hoje, uma instituição educacional deveria dizer que deseja homens e mulheres virtuosos, preocupados com o bem comum, pessoas que saibam cuidar de si, dos outros.

RCV - A sociedade moderna exige pessoas capazes de resolver problemas complexos, mas, ao mesmo tempo, forma filhos dependentes e mimados. Como superar essa contradição?

VZ- A crise da modernidade impactou muito o mundo inteiro e, hoje, a pós-modernidade, como diz Zygmunt Bauman ( filósofo polonês), formou uma geração mais líquida e essa liquidez vai mudando a mentalidade. Eu creio que o grande problema da sociedade pós-moderna é que gera a insatisfação nas pessoas. Nós vivemos em um cenário sócio-político no qual as pessoas estão muito insatisfeitas. E as pessoas não conseguem ler o real e ver o que é um avanço, uma conquista. Elas só conseguem ver o que não têm ou o que perderam ou não conseguem se alegrar com o que ganham. Isso fica bastante complexo no cenário da educação dessas novas gerações. Como possibilitar que essas pessoas tenham lucidez, discernimento, ponderação? As crianças e adolescentes têm de aprender a fazer suas escolhas em um mundo tão diverso e fragmentado. Hoje, as instituições estão fragmentadas, há uma crise nos estados. Vivemos a imaterialidade do comércio. A Uber é uma empresa imaterial, um aplicativo. A música que você compra já não tem materialidade. A sociedade tem de se descobrir: quem é, onde está e que mundo quer.

RCV – Dentro desse cenário, quando vamos sair do modelo de escolas que ensinam a memorizar para escolas que ensinam a pensar?

VZ – Hoje você tem vários métodos. O que a gente percebe atualmente no país com a nova BNCC ( Base Nacional Comum Curricular) é focar mais no aprendizado e no aluno. De maneira geral, nós vemos uma preocupação pedagógica de fortalecer o aprendizado e a formação integral. Então, se nós formos ver os últimos anos, em todo o país, se dá um suporte para fortalecer a formação integral, que seja intelectual, física, psíquica, ética e estética. Agora, as concretizações são mais complexas.

RCV – Em um mundo competitivo, no qual se busca a todo custo a conquista dos primeiros lugares, como conciliar essa pressão com o ensino de respeito aos valores éticos?

VZ – Eu acho que o mundo está manipulando as pessoas. Se tu fores fazer uma leitura do movimento, a educação se tornou uma mercadoria. Hoje, você vê grandes grupos econômicos investindo no Brasil no mercado da educação, mas a sala de aula não é a preocupação. Isso acaba sendo até um subproduto, porque eles estão vendendo livros, aplicativos, ferramentas. O aprendizado do aluno acaba sendo um subproduto. Aí tem um elemento que eu acho muito complicado que é a tensão, principalmente das famílias, entre perspectiva e expectativa. Perspectiva é o que tu projeta no futuro que pode vir a acontecer, o que Paulo Freire chama de ‘ inédito viável’. As expectativas são as concretizações históricas e, quando se confunde perspectiva com expectativa, há uma frustração. Às vezes, se pensa que a escola tem de resolver todos os problemas. Não! Se o aluno adquire uma nota mediana quer dizer que ele não sabe? Não. Ele sabe e vai crescendo. É importante que a família tenha presente que o processo de aprendizagem é gradual e cada um tem o seu tempo, o seu contexto e as suas virtudes. E a educação tem de contemplar isso. A nova BNCC, com todo o debate que há em torno da politização da educação, traz uma preocupação em formar habilidades, de desenvolver conhecimentos e competências. Então, há um movimento da formação integral e isso é importante. Mas, por outro lado, há uma tendência de criar aqueles que são os melhores. Nunca serão os melhores.

RCV – Qual a sua visão de um aluno bem sucedido?

VZ – Um aluno bem sucedido, para mim, é aquele que consegue desenvolver o máximo das suas competências e habilidades. É aquele que aprende a conhecer a si, o seu entorno, e que possa ter uma incidência positiva em tudo que ele fizer e onde ele estiver. O aluno bem sucedido não é aquele que tem os resultados acima dos outros, mas aquele que, cada vez mais, se conhece e está realizado e satisfeito com o que é e busca ser mais.

RCV – Na sua experiência como educador, quem dá mais trabalho: os alunos ou os pais dos alunos?

RCV – O que me preocupa é que, muitas vezes, você encontra alunos imaturos e pais imaturos. O que é um aluno imaturo? É aquele que vem com um nível de preocupação de adultos. E um pai imaturo é aquele que vem com um nível de preocupação de criança ou de adolescente. Um aluno maduro vai te gerar preocupações da própria dinâmica da idade, o que é natural e nos deixa tranquilos. Agora, um pai imaturo que não consegue ser o adulto da relação é muito complicado porque você acaba tendo uma inversão de papeis. Nesse sentido, o que nós teríamos de ter: pessoas maduras e equilibradas, com cada uma respondendo e reagindo conforme a fase da sua vida. Hoje, vemos crianças com uma sobrecarga muito grande de adultos. É preocupante ver crianças com uma agenda como se fossem o presidente de uma empresa multinacional, com um nível de ansiedade, de doenças próprio de um adulto, como também pais que querem que o filho viva seu sonho. O pai tem de possibilitar que o filho descubra e construa o sonho dele. Toda vez que uma família projeta um sonho de futuro para o filho, a possibilidade de frustração, principalmente do jovem, é grande.