Santo Inácio 2015

QUEM FOI INÁCIO


Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, nasceu em 1491 em Loyola, Espanha, numa família nobre. Inácio nasceu no castelo de Loyola em 1491, sendo o mais novo dos 13 filhos de Beltrán de Loyola e Maria Sonnez. Aos 16 anos foi enviado como pajem ao palácio de Juan Velásquez de Cuellar, ministro do Tesouro Real do reino de Castela, o que lhe permitiu estar em contato contínuo com a corte. Viveu os primeiros 26 anos de sua vida com muita vaidade e ostentação.Em 1517 o jovem Inácio se tornou militar e participou de algumas campanhas com seu tio, vice-rei da Navarra. Enviado em defesa de Pamplona contra os franceses, em 1521, é ferido gravemente na perna, por uma bala de canhão, passando meses inválido, no castelo de seus pais.

CONVERSÃO

Durante o longo período de recuperação, Inácio começou a ler sobre a vida de Cristo e dos santos, únicos livros que havia no castelo, e sua conversão se deu da maneira mais radical. O ideal de santidade foi apresentado como uma empresa heroica de imitação “do eterno Príncipe Cristo Jesus”, rodeado pelos santos como seus “cavaleiros” imitadores.Inácio se pôs a discernir em si os efeitos da leitura e começou a se sentir atraído pelo ideal de serviço à pessoa de Jesus Cristo. O que caracterizou esta primeira etapa espiritual foi o descobrimento da luta de espíritos que revelou o sentido da sua condição de pecador, de sua convivência com o mal e da necessidade de uma transformação radical de vida. O discernimento dos espíritos foi a sua primeira experiência religiosa.

Neste primeiro momento da conversão de Inácio, o Cristo se revelou como o seu Senhor e Chefe. Ao mesmo tempo, esse encontro com Cristo o fez experimentar que sua existência era equivocada, irreal e vazia. Sentiu a necessidade de uma profunda mudança. A leitura da vida dos santos excitou a sua vontade e provocou nele um extremo desejo de fazer “grandes coisas”. Os exemplos dos santos apresentaram atitudes concretas de resposta do “cavaleiro”, que escolheu livremente o “serviço notável” de seu Senhor. Reconhecendo-se sem experiência na vida espiritual, ele tomou como norma de vida a imitação dos santos, limitando-se a realizar automática e repetitivamente o que eles fizeram, sobretudo no que se refere a austeridades extremas: solidão, disciplina, jejuns e penitências.

COMPANHIA DE JESUS

Em Paris, estudou na Universidade de Paris, atual Sorbonne. Lá encontrou os seis primeiros discípulos, com os quais fundaria a Companhia de Jesus. Guiados por Inácio de Loyola, Pedro Fabro e Francisco Xavier fizeram os Exercícios Espirituais.

Ainda em 1534, o pequeno grupo era já formado por sete companheiros que tão somente desejavam consagrar inteiramente suas vidas a Deus. Desse modo, no dia 15 de agosto do mesmo ano, em Montmartre (França), fazem votos de pobreza, de serem ordenados padres (à exceção de Pedro Fabro, já presbítero) e de peregrinarem a Jerusalém.

O fruto da deliberação dos primeiros companheiros foi apresentado ao papa Paulo III que o aprovou oralmente, reconhecendo a Companhia de Jesus em 3 de setembro de 1539. Um ano depois, no dia 27 de setembro de 1540, o mesmo papa Paulo III aprova oficialmente a Companhia de Jesus com a bula Regimini Militantis Ecclesiae. Em pouco tempo, os jesuítas se multiplicaram e se espalharam por todo o mundo nas mais distintas e inimagináveis missões.

São Francisco Xavier, no Oriente, e o Beato José de Anchieta, no Brasil, são apenas dois exemplos do fervor apostólico e missionário da Companhia em seus primeiros anos. Apesar da supressão dos jesuítas pelo papa Clemente XIV, em 1773, o fogo aceso por Inácio e pelos primeiros companheiros não se extinguiu. Restaurada em 1814, a Companhia se viu diante de um novo período em sua história, mas sua chama seguiu ardendo. Hoje, assim como ontem, a Companhia de Jesus é reconhecida no mundo inteiro pelo seu trabalho missionário e pela sua atuação nas áreas educacional, espiritual, intelectual e social.

Hoje

A Companhia de Jesus aposta na inovação, na formação integral de crianças e jovens, no resgate da dignidade e integridade humana a partir do Evangelho de Cristo. O objetivo é colaborar com a transformação da sociedade através da Espiritualidade, da promoção social, do diálogo intercultural e inter-religioso, do serviço da fé e da promoção da justiça.

A espiritualidade da Companhia de Jesus (espiritualidade inaciana) sublinha o bom cuidado de todas as criaturas, apreciando a presença de Deus em todas as coisas.

No entanto, a atual destruição do meio ambiente ameaça o futuro do planeta, deslocando muitas comunidades e afetando de modo especial os povos indígenas. Nos diferentes ministérios, se tem a responsabilidade de fazer um apelo urgente que se respeite a criação, como algo fundamental para manter uma correta relação com Deus e com os outros.

A Companhia de Jesus está presente em mais de 130 países, atua há mais de 470 anos. Produz conhecimento para o desenvolvimento social por meio da pesquisa cientifica e do aprofundamento intelectual. Proporciona educação de qualidade para mais de três milhões de pessoas em uma das maiores redes de educação do mundo, a Rede Jesuíta de Educação, que abraça mais de 180 colégios, 200 universidades e faculdades e 2.724 centros de Educação Popular Fé e Alegria.

EXPERIÊNCIA DE INÁCIO – ETAPAS DE PEREGRINAÇÃO

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LOYOLA

Convalescente em sua casa, devido à ferida que recebera durante a defesa de Pamplona contra os franceses, e desejando “algo” que o entretivesse, na falta de outra coisa, foi-lhe dado para leitura a Vita Christi e Flos Sanctorum. A leitura destes dois livros foi o ponto de partida no seu processo de conversão a Cristo.

Nos prólogos de ambos os livros, o ideal de santidade é apresentado como uma empresa heroica de imitação “do eterno Príncipe Cristo Jesus”, rodeado pelos santos como seus “cavaleiros” imitadores. Inácio se pôs a discernir em si mesmo os efeitos da leitura e começou a se sentir atraído pelo ideal de serviço à pessoa de Jesus Cristo. O que caracteriza esta primeira etapa espiritual, segundo a Autobiografia, é o descobrimento da luta de espíritos que revelava o sentido a sua condição de pecador, de sua convivência com oe da necessidade de uma transformação radical de vida. O discernimento dos espíritos será a sua primeira experiência religiosa.

Neste primeiro momento da conversão de Inácio, o Cristo se revela como o seu Senhor e Chefe; ao mesmo tempo, esse encontro com Cristo o fez experimentar que sua existência era equivocada, irreal, vazia. Sente a necessidade de uma profunda mudança. A leitura da vida dos santos excita a sua vontade e provoca nele um extremo desejo de fazer “grandes coisas”; os exemplos dos santos apresentam atitudes concretas de resposta do “cavaleiro” que escolhe livremente o “serviço notável” de seu Senhor. Já desde o primeiro instante de sua nova vida, uma ideia o absorve: é o “serviço de Deus”; “com grandes desejos de servi-lo em tudo o que conhecesse ser sua vontade”; a beleza do firmamento o inspira a um vivo desejo de “servir ao nosso Senhor”; “embora não tivesse ciência de assuntos espirituais, contudo ao falar mostrava muito fervor e muita vontade de progredir no serviço de Deus”. Mas Inácio concebia seu serviço em função das ideias que havia tirado de suas leituras: desejava imitar os santos. São justamente as “coisas difíceis e grandes”, realizadas pelos santos, que o fascinavam; logo desejava ardentemente fazer o mesmo: “pensava nas façanhas que havia de fazer por amor de Deus”.

Reconhecendo-se sem experiência na vida espiritual, vai tomar como norma de vida a imitação dos santos, limitando-se a realizar automática e repetitivamente o que eles fizeram, sobretudo no que se refere a austeridades extremas: solidão, disciplina, jejuns e penitências.

Seu primeiro ideal de santidade era viver sempre em penitência. Todos os outros propósitos que fez foram só uma execução mais concreta desta decisão fundamental. Seu primeiro propósito prático: começaria por uma peregrinação a Jerusalém. Também as considerações sobre o que faria quando regressasse da Terra Santa estavam determinadas pelo pensamento da penitência.

Embora, neste primeiro momento, a perspectiva de grandes penitências e a ideia de peregrinar atraíssem Inácio muito mais que o ideal apostólico, Loyola continua sendo o cenário de uma conversão radical que dá já ao Peregrino um coração generoso e inflamado em Deus. Trata-se de uma etapa preparatória, que lança as bases de uma vida espiritual que vai se estruturando ao longo de sua vida.

Mas a via que escolhe, atraído pelo exemplo dos santos, estava ainda distante do “quero” eficaz. Confiando puramente no esforço humano e na ação voluntária, Inácio dá ênfase aos projetos que partem de sua própria iniciativa, quer agir por si mesmo, “conquistar” sua salvação, buscando, às vezes, forçar a mão de Deus. Sua vontade era joguete dos seus próprios pensamentos. Em sua resposta ao desejo profundo de servir a Deus, falta uma atitude de docilidade mais profunda e iluminada, à ação da graça, o qual exige a inteira entrega de si mesmo a Deus, a autêntica pobreza evangélica; a busca da honra continua sendo uma tentação permanente (inclusive os modelos de santo que admira são os mais apreciados por sua sociedade); sua generosidade para com o Senhor é ainda muito ostentatória.

Mas Deus, fiel à sua pedagogia, ensinará ao convertido de Loyola, através dos futuros acontecimentos, a entregar-se à sua ação.

MANRESA

Terminada sua convalescença, Inácio parte a caminho de Jerusalém. Depois de uma “vigília de armas” em Montserrat, detém-se em Manresa, à espera de poder embarcar em Barcelona para a Itália e a Palestina. Passada uma primeira etapa difícil, de intensa luta anterior, de escrúpulos, obscuridades…, seguiu-se um segundo período de iluminação interior extraordinária e de maturação definitiva em sua nova vida, culminando na visão que tivera junto ao rio Cardoner.

O conteúdo objetivo das grandes iluminações de Manresa se situa exatamente na linha de continuidade e de progresso das experiências espirituais vividas por Inácio em sua casa-torre: no centro está Jesus Cristo, mediador da Revelação e fundamento de Salvação. Mas em Manresa, Jesus Cristo não é mais visto por Inácio como alguém distante e isolado. Inácio contempla Cristo dentro da Trindade e através de sua ação criadora. Cristo é o “Filho Mediador” que conduz os homens ao Pai, Ele é o Senhor de todas as coisas, que se revela como o Rei vivo e operante, e que ainda não terminou a sua missão recebida do Pai de instaurar seu Reino por todo o mundo. “Minha vontade é conquistar o mundo todo e todos os inimigos, e assim entrar na glória de meu Pai” (EE 95). Para levar a termo tal missão, Jesus não trabalha sozinho, busca homens generosos e amigos íntimos, convidando-os a tomar parte de sua campanha.

Respondendo ao chamado, Inácio incorpora-se definitivamente a Cristo como colaborador com Ele na tarefa de anunciar a mensagem evangélica. O decisivamente novo na sua vida, em Manresa, é justamente a apresentação de uma nova imagem de Cristo, encontrada nas duas contemplações centrais dos Exercícios Espirituais: a do “chamamento de Cristo” e a das “Duas Bandeiras”. Com isso, podemos perceber que a grande iluminação do Cardoner foi uma graça eminentemente ativa, ou seja, Inácio não só adquire uma mentalidade nova e um “espírito” novo através da qual ele começa a ver Deus presente ativamente em todas as coisas, como também, a partir deste momento, há todo um programa, um ideal, um plano de vida que deve ser realizado de modo urgente. Certamente este plano não era tudo desde o primeiro instante, mas explita-se à medida que Inácio o realiza.

Estamos diante de uma nova etapa espiritual na vida de Inácio. Ele mesmo nos confessa que seus “Olhos interiores” se abriram. A “nova inteligência” que a visão do Cardoner lhe dá, Inácio a emprega para reestruturar sua vida, bem como reestruturar definitivamente a concepção que ele tinha de Deus, do homem e do mundo. Tal reconversão o faz transformar-se totalmente de homem solitário em homem solidário, de homem totalmente penitencial e contemplativo em homem ativo que elege a ação e o apostolado por Cristo, e muda por completo sua concepção de vida espiritual. Inácio passa da imitação ingênua dos santos ao seguimento de Cristo: o desejo cego de fazer “grandes coisas” se transforma em “querer mostrar maior afeição e distinguir-se no serviço total de seu Rei eterno e Senhor universal” (EE 97); o empenho de imitá-lo, repetindo os mesmos gestos dos santos, torna-se agora ardor apostólico, diminuindo a dureza das penitências, adaptando-as e subordinando-as à nova orientação apostólica; o desejo de solidão dá lugar ao encontro com as pessoas pela atividade apostólica; também a peregrinação à Terra Santa passa a ter uma dimensão apostólica. A ideia da viagem persiste, mas a finalidade agora é outra: ir trabalhar pela conversão dos turcos, cismáticos… Ao deliberar sobre o que fazer quando retornar, será ainda o mesmo desejo de “ajudar as almas” e de maneira mais eficaz que o levará a tomar o caminho das escolas e grandes universidades da Europa. De agora em diante, todas as suas decisões, pequenas ou grandes, serão tomadas sempre a partir de seu ideal apostólico.

Manresa significa também purificação de sua vontade, através de uma entrega verdadeiramente cristã, ordenada conforme os caminhos de Deus. Inácio alcança uma autêntica pobreza de espírito que o liberta de seu desejo ambicioso de confiar em si mesmo e em suas forças para conseguir a própria salvação. Abandona-se ao poder da graça e da misericórdia divinas, única fonte de salvação.

JERUSALÉM

A leitura atenta da vida de Jesus e a contemplação de seus mistérios moveram Inácio a deixar-se penetrar pela pessoa de Jesus: seu modo de ser, suas palavras, seus valores, sua visão de mundo, sua opção pelo Reino… O Cristo que Inácio quer conhecer para mais amá-lo e segui-lo é o Cristo que se encarnou; é o Cristo que, para realizar a Salvação de Deus, assumiu a condição humana, em um determinado lugar, tempo, povo… Por isso Inácio decidiu deslocar-se para o país onde Jesus vivera, para Jerusalém.

Inácio projeta fixar-se em Jerusalém e visitar os “lugares santos”, pretende viver em pobreza na terra de seu Senhor, visitar sem cessar os lugares santificados por sua presença, beijar e venerar até a disposição de seus pés, imprimir no seu coração os menores gestos, e, enfim, continuar a obra salvífica entre os infiéis, ali mesmo onde seu divino Rei anunciou sua Palavra, enviou seus apóstolos ao mundo, deu sua vida pelos homens…

Inácio encontra, em Jerusalém, muita devoção, alegria interna, oração com abundante consolação, sentimento de uma contínua presença em Cristo. Tudo isto nos indica como a figura de Cristo passa a ser central em sua vida, embora tal busca esteja ainda marcada pela literalidade, pelo imediato, pelo localizado.

Todavia, Deus é maior que todos os projetos de Inácio. Ele não consegue permanecer com o Cristo de Jerusalém, como ele havia programado, por mais de 15 dias; deve retomar o caminho de volta. Mas Jerusalém continuará presente no desejo sincero de conhecer sempre mais a Cristo, continuará presente no desejo evangélico de compartilhar com Jesus sua condição de perseguido e rechaçado. Inácio descobrirá que Jerusalém está um pouco por todas as partes. Começa a ver que a verdadeira proximidade de Jesus está em “fazer a vontade do Pai”, começa a perceber que a profundidade da pessoa de Jesus era e é mistério que só pode ser captado como dom de Deus (Lc 10,22), começa a dispor-se a seguir o Senhor ressuscitado que “vai adiante” (Mc 16,7) cuja proximidade é misteriosa e histórico-gratuita.

Após a primeira experiência de profunda pobreza, Inácio passa a viver agora mais estreitamente o mistério de humildade de Cristo, segundo degrau do programa das Duas Bandeiras (EE 146). Todo o período de retorno à Europa e de estudos nas universidades está sob o signo dos opróbrios de Jesus: preso, despojado de suas vestes, tomado por um louco, processos de acusação… Inácio vai encontrando uma nova Jerusalém no serviço aos mais fracos, aos famintos, pobres, doentes nos hospitais…

É significativo que o último lugar venerado por Inácio, e que ele leva como última recordação de Jerusalém, seja o lugar da Ascensão do Senhor, quando ele “deixa” a terra e envia os Apóstolos a anunciar o Evangelho a toda criatura e a ser testemunhas até os confins do mundo. Inácio deixa a Terra Santa como os Apóstolos; até o fim da vida ele será o peregrino de Cristo.

LA STORTA

A graça de La Storta se situa ao término de um longo itinerário espiritual, como o coroamento de uma longa espera. De fato, o dom que o Senhor fez a Inácio em La Storta está profundamente relacionado com a experiência espiritual de Manresa. Entre o Cardoner e La Storta (1522-1537), temos um período de quinze anos, cheio de peripécias e acontecimentos, que, para Inácio, significaram uma profunda maturação espiritual. Nesta época tão agitada de sua vida, chama a atenção seu incessante peregrinar. Inácio vive numa atitude de alguém que busca o caminho para um oferecimento mais completo de sua vida ao serviço de Cristo e dos homens. Ele reconhece que este oferecimento deve ser aceito pelo Pai para que possa ser frutífero. Na sua experiência, o Pai é a fonte única de todo bem e de toda graça. Daí a necessidade de uma constante petição ao Pai, por mediação de seu filho e de Maria: “para que eu seja recebido sob a sua bandeira” (EE 147). Esta atitude de oblação culminará em Paris com a consagração ao Senhor por meio dos votos e se aprofundará com a ordenação sacerdotal e a preparação para a primeira missa. Mas agora encontramos uma nova petição-chave que atrairá a atenção de Inácio: “preparando-se e rogando à Virgem que o quisesse por seu filho”. Esta frase expressa a aspiração de uma proximidade mais íntima com Jesus Cristo, a uma particularíssima interioridade com Ele.

La Storta é a resposta do Pai ao desejo de Inácio, despertado pela graça.

Inácio sente profundamente que sua votação é a de ser companheiro de Jesus e que a Trindade o aceita como seu servidor.

Como no Cardoner, Inácio tem a certeza de que se operou uma mudança profunda em seu interior: o Pai o uniu a Cristo de um modo especial.

Esta visão é a tomada de posse total, a conformação a Cristo na Cruz. Inácio é “posto” de modo particular “com” o Crucificado. A Cruz está no centro de sua espiritualidade.

Mas não se trata de uma mera associação extrínseca, Inácio se sente definitivamente admitido na intimidade do Pai e do Filho, na comunhão mais plena com Jesus Cristo; esta intimidade não terá uma dimensão meramente contemplativa, mas significará, sobretudo, intimidade de serviço apostólico. Servir será de agora em diante consagrar-se inteiramente à cooperação com a ação trinitária, como companheiro de Jesus, na pobreza, na humildade, na abnegação de si mesmo. Este serviço por amor se concretiza em serviço à Igreja, sob a autoridade do Vigário de Cristo.

Texto: Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (retirado do site jesuitabrasil.com)

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS – PRINCÍPIO E FUNDAMENTO

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Porta de entrada dos Exercícios no qual Santo Inácio ressalta a atitude fundamental que espera do exercitante e sem o qual não se pode iniciar o processo. A experiência do Princípio e Fundamento nos leva ao encontro com Deus numa atitude de disponibilidade, de generosidade e de entrega livre à ação de seu Espírito; nos revela o Deus de Jesus Cristo, o Deus que está presente em nós, providente, que sustenta a história de cada um e sustenta a criação toda, que está realizando o seu projeto em cada momento de nossa vida.

O Princípio e Fundamento é, de fato, o espírito fundamental que anima todo o itinerário dos Exercícios, ou seja, o exercitante permanece constantemente sob sua influência; ele contém em si o germe de todos os Exercícios; ao mesmo tempo, cada exercício implica uma recordação da experiência do Princípio de Fundamento. Também o processo de cada “semana” não fará outra coisa que dar conteúdo, inspiração e força àquilo que fora experimentado na consideração do Princípio e Fundamento. Por isso mesmo ele é a chave dos Exercícios e a síntese de uma experiência que se explicará ao longo de todo o processo; com ele, o retiro põe-se em movimento.

O Princípio e Fundamento provoca, em cada exercitante, uma nova e original experiência espiritual. Porém, não se trata de uma instrução, nem de um resumo de fé, e, muito menos, de uma reflexão fria e racional. Ao despertar a inteligência e ao estimular a generosidade, num ambiente de oração, de amor, de louvor, o Princípio e Fundamento introduz o homem na experiência de fé vivida em toda sua radicalidade: busca constante de Deus que o chama e entrega confiada à sua vontade; purificação das imagens do Deus em que crê; pobreza e disponibilidade total para em tudo amá-lo e servi-lo etc… Aqui não é lugar para uma teoria sobre Deus Criador e o homem criatura, mas “encontrar- se” com Deus, conhecer e experimentar a Deus e sentir que “o mesmo Criador e Senhor se comunica à alma devota, abrasando-a em seu amor e louvor e dispondo-a para o caminho em que melhor poderá servilo depois” (EE 15).

Diante dessa realidade do Absoluto de Deus que ele experimenta, sua atitude deve ser a de louvor, reverência e serviço, ou seja, reconhecimento consciente, livre de sua dependência total ao Deus Criador. Como consequência desta descoberta do Amor Primeiro, supõe-se da parte do homem uma liberdade diante das “coisas” e uma disponibilidade total a Deus; Inácio chama esta atitude de indiferença, que não significa falta de iniciativa, insensibilidade ou apatia, mas “atitude livre perante as coisas”, distância afetiva das coisas para eleger bem, libertação interior afetiva aberta a Deus… Trata-se de ser livre de, para ser livre para.

“INDIFERENÇA”

Não encontramos nos Exercícios o substantivo “indiferença” senão o adjetivo “indiferente” (EE 23; 157; 170; 179). A indiferença não é um fim em sim mesma, mas implica uma passagem necessária ao amor autêntico, à escolha daquilo “que mais nos conduz ao fim para que somos criados”. É liberdade para uma decisão que, no fundo, não é minha, mas de Deus; é sua vontade que devo buscar ao fazer uma eleição. Para Inácio, a indiferença é a pedra de toque de uma “boa e sã” eleição, pois ela ajuda a “seguir aquilo que sentir ser mais para a glória e louvor de Deus Nosso Senhor e salvação de minha alma” (EE 179). Por essa razão, a indiferença inaciana não é uma “virtude permanente”, mas vital e em contínuo estado de tensão, pois supõe que nos encontremos, de uma maneira ou de outra, em contínuo estado de eleição; ela é sempre uma preparação interior, um equilíbrio preliminar, uma “disposição” que leva a pessoa a descobrir a cada instante onde se encontra a vontade divina; trata-se de uma atitude provisória, pois cessa depois de ter sido feita a escolha (em relação à coisa escolhida). Evidentemente, a pessoa que continuamente vive esta “disposição” terminará por se afastar de tudo o que não é de Deus e somente amar em todas as coisas o que for do agrado divino. Nesse sentido, a indiferença desempenha um papel purificador e libertador, já que nos permite perceber, compreender e amar a vontade divina. Somente quando o homem é verdadeiramente indiferente é que ele pode perceber esta ação imediata de Deus nele; a indiferença é, pois, a preferência dada à vontade de Deus em relação a tudo: “procurar em todas as coisas a Deus Nosso Senhor, arrancando de si, quando possível, o amor de todas as criaturas para o pôr todo no Criador delas, amando-O em todas, e amando todas n’Ele, conforme a sua santíssima e divina vontade” (Const, 288). Disso resulta que a indiferença é uma distância das “coisas” que deve ser determinada à luz de Deus: é a liberdade do homem que confia em Deus, que orienta seu olhar para o Senhor e se deixa conduzir pela força do seu amor. É algo que envolve todas as dimensões do nosso ser, que requer o concurso de todas as nossas faculdades espirituais, razão, vontade, coração. A indiferença inaciana só será inaciana quando integra o “magis”; a expressão “fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas” só se compreende se a consideramos em sua relação com a escolha do melhor; o objetivo da indiferença, portanto, não é outro que a busca contínua da maior glória de Deus.

Texto: Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (retirado do site jesuitasbrasil.com)